quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

tão longe, e tão perto

Há já algum tempo que ando a reflectir sobre a colocação de um post relativo a um tema bíblico. Para quem me conhece bem até é de estranhar que, ao fim de quase um ano, ainda não o tenha feito de forma explícita, mas julgo que ao ler-se o blogue, aqui e ali (salvo os momentos em que o espírito não falou tão forte), já deu para perceber em que pé é que me encontro.
De entre as inúmeras passagens que poderia escolher, confesso que há uma que me toca particularmente. Estou a falar do episódio da mulher adúltera. Penso que é uma passagem bem demonstrativa da real dimensão e significado da
passagem de Jesus Cristo pelo mundo. Aqui encontramos bem patente a lei suprema do universo que o Filho do Homem veio pregar, a qual está acima de todas as outras, pela simples razão de que já as cumpre, além de as preencher de sentido: o Amor pelo próximo.
Relembrando sucintamente, na passagem a que me refiro, os judeus vieram entregar a Cristo uma mulher apanhada em adultério. Segundo a interpretação que se fazia da Lei na altura, essa mulher deveria ser apedrejada em praça pública. O intuito de quem a entregou a Cristo, mais do que castigá-la, era o de O tentar apanhar numa cilada pois, assumindo-se Ele próprio como o Messias, o Enviado de Deus de quem as escrituras falavam, qual seria então a sua interpretação da Lei neste caso? Seguiria o costume judeu, sendo conivente com o apedrejamento mas, simultaneamente, condenando alguém à morte (Ele, que pregava o amor e o perdão) ou, por outro lado, absolveria a mulher, indo assim contra o que estava escrito?
Perante esta situação, Jesus, com grande serenidade, lança um repto aos acusadores: "Aquele que de entre vós está sem pecado, seja o primeiro a atirar uma pedra.". Um a um, os homens que vieram entregar a mulher à presença de Cristo foram abandonando o local, sem nenhum ter lançado qualquer pedra. Posto isto, e ao ver que ninguém restava da multidão, perguntou à mulher: "Mulher, onde estão os que te acusaram? Nenhum homem te condenou?", ao que ela respondeu, "Não, meu Senhor", e aí diz Jesus: "Pois também eu não te condeno. Vai, e não voltes a pecar."
A mestria de Cristo ao lidar com esta a situação é absolutamente formidável. Mais do que apressar-se a dar um julgamento à mulher pede aos presentes que, em consciência, e achando-se dignos de efectuar tal julgamento, avancem e façam cumprir a Lei de Moisés. Ora, Cristo sabia muito bem que neste mundo, para além d'Ele, ninguém é livre de pecado, não possuindo, portanto, ninguém, a estatura moral para condenar quem quer que seja. Mas mais importante do que isto é a nova dimensão que é introduzida aqui na Lei bíblica, na qual, acima de qualquer regulamento ou sentença perante o pecado, se encontram a compaixão e o perdão, dois dos maiores caminhos para a conversão a Deus.
Na realidade, a meu ver, só mesmo aquela mulher, desesperada a caminho de uma morte violenta e cruel (à semelhança de tantos outros que se vão achando em situações extremas pela vida fora), terá sido capaz de perceber a verdadeira grandeza que tem a chama redentora deste gesto de misericórdia.
Cristo consegue assim, para além de manter a coerência com a Palavra que ensinava e da qual era o exemplo vivo, elevar aquela pecadora à graça do Pai, relembrando-nos ainda da humildade que deve estar presente a cada momento da nossa vida, nas nossas acções e palavras, posto que, é certo e sabido, ninguém é perfeito.
É perante esta figura que o mundo pára e olha para dentro, descobrindo uma mensagem universal de amor e compaixão cujo alcance está infinitamente tão para lá do nosso entendimento, mas tão infinitamente próximo do nosso coração. O Amor, e só o Amor, é o que une todos os homens, o que destrói as barreiras e penetra a fronteira das diferenças, sublimando a dor e o sofrimento numa canção de vida e comunhão.
É por estas razões e mais algumas que, escreva-se, diga-se ou faça-se o que quer que seja para perverter a Fé dos que a têm, Jesus Cristo permanecerá incorruptível perante o julgamento dos homens, ao ser um modelo radical de amor e sabedoria que nos aponta o caminho para uma verdade que, por vezes, parece tão distante, mas que afinal está aqui tão perto, aqui tão dentro de nós.

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

caminhos para a felicidade



"Já vivi muita coisa e agora acho que descobri o que é preciso para ser feliz. Uma vida calma e sossegada no campo, com a possibilidade de ser útil a pessoas às quais é fácil fazer o bem, que não estão acostumadas a serem servidas. E trabalho que se espera possa ser útil. Depois descanso, natureza, livros, músicas, amor pelo próximo. Essa é a minha ideia de felicidade. E aí, acima de tudo isso, ter você por companheira e filhos talvez. O que mais o coração de um homem pode desejar?"


Leo Tolstoy em A Felicidade Conjugal

quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

Quem vê mais além









O mundo despediu-se de Irving Penn faz agora uma semana. O seu espírito visionário, composição perfeita e minimalista, e a amplitude dos temas que fotografou e criou ("Photographing a cake can be art.") fazem dele um dos nomes maiores de sempre da fotografia. Foi um dos primeiros fotógrafos a passar com sucesso do universo da moda para a fotografia artística, onde se movimentou sempre à sua maneira. Alguma da arte que criou não é do seu tempo - é de agora, e de outro, lá, mais longe.

quarta-feira, 2 de Setembro de 2009

estudo para um continente às ruínas do muro de berlim

perdidos no outrora calor de 1940's
alguém aponta a sina do caminho estreito

mente relâmpago, coração duro e farto em adiamento
a europa sangra destas mãos cheias de tão áspera emoção

homens pensam e relembram gerações
mulheres e crianças caminham para um desconhecido sentimento

mas quem poderá contar a honra de tão vivido continente -
nasceu de um calor que não vem do sol
e cada fronteira é a cicatriz de um relâmpago
_

quinta-feira, 2 de Julho de 2009

hoje deixo aqui a segunda parte do poema S. Rafael, de Federico Garcia Lorca.

Um peixe sozinho na água
que as duas Córdovas junta:
Branda Córdova de juncos.
Córdova de arquitectura.
Moços de cara impassível
na margem põem-se nus,
aprendizes de Tobias,
e Merlins pela cintura,
para aborrecer o peixe
em irónica pergunta,
se deseja flores de vinho
ou saltos de meia lua.
E o peixe que doura a água
e os mármores enluta
dá-lhes lição e equilíbrio
de solitária coluna.
O Arcanjo arabizado
de lantejoulas escuras
entre o comício das ondas
rumor e berço procura.

Um peixe sozinho na água.
Duas Córdovas de formusura.
Córdova quebrada em jorros.
Celeste Córdova enxuta.

sábado, 27 de Junho de 2009

poema de Oswaldo Montenegro

"Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
porque metade de mim é o que eu grito
mas a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
porque metade de mim é partida
mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
porque metade de mim é o que ouço
mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz que eu mereço
e que essa tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita em meu rosto num doce sorriso
que eu me lembro ter dado na infância
porque metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o teu silêncio me fale cada vez mais
porque metade de mim é abrigo
mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta
mesmo que ela não saiba
e que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
porque metade de mim é platéia
e a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada
porque metade de mim é amor
e a outra metade também."
_

terça-feira, 16 de Junho de 2009

as palavras não chegaram


se eu tivesse que citar três ou quatro poetas que me marcaram até agora, diria talvez: walt whitman, pela universalidade e amplitude de Ser; Camões, pela paixão vibrante que faz saltar das palavras; Garcia Lorca, pelo apego às raízes da sua terra, Andaluzia, e a maneira como a escreve; e num lugar muito especial, Paul Celan, talvez pela marcada angústia que conseguiu, não conseguindo, colocar em palavras. E também por ter sido uma alma amarguradamente sofredora, o que me comove sempre.
Paul Celan, pseudónimo de Paul Antcshel, foi um poeta judeu romeno de meados do século XX. É, muito possivelmente, o mais extraordinário poeta do pós-segunda guerra mundial; guerra à qual deve a força omnipresente que alimenta grande parte da sua obra e também a sua tortura interior. O ainda jovem poeta viu perderem-se nos campos de concentração seu pai e sua mãe, esta última tendo sido fuzilada com conhecimento posterior do filho ("Cai agora, mãe, neve na Ucrânia: (...) De minhas lágrimas aqui, nenhuma chega até ti./ De antigos acenos só uma orgulhosa mudez... (...) Nisso urge às vezes uma hora de rosas./ Extinta... Uma. Sempre uma.../ O que seria, mãe: crescimento ou ferida -/ submergirei também eu nas dores da neve da Ucrânia?") tendo o próprio Celan conseguido escapar e sobreviver à carnificina nazi. O Holocausto é, de facto, o elemento catalizador da sua poesia, sobretudo na fase inicial da sua escrita, onde se notam abertas referências à memória que trouxe consigo de uma das mais lamentáveis páginas da história moderna. "Todesfuge" ("Fuga da Morte", sendo que fuga é usado aqui no duplo sentido de acto de fugir e como referência ao tipo de composição musical, dado o ritmo e cadência que ele imprime à escrita) é um dos maiores poemas que já li até hoje. De extraordinária complexidade e intensidade arrebatadora (embora que calada e não gritante), o poeta descreve a sua vivência num campo de trabalho nazi, misturando imagens e sensações enlevadas tragicamente num quadro que quase chega a roçar a sinestesia onírica, muito embora nada daquilo seja sonho, para grande infelicidade nossa. Vai cantando uma dança da morte ao som de violinos que tocam, enquanto judeus: "cavamos a sepultura nos ares lá não se há-de estar apertado", há medida que se escreve e se sonha com cobras o cabelo de ouro de Marguerita e os cabelos de cinza de Sulamita ("Dein goldenes Haar Margarete/ Dein aschenes Haar Sulamith").
Paul Celan vai para além das palavras, sendo a questão da linguagem essencial na sua poesia, dados os limites que se impõem à escrita como meio de expressão do Eu poético, sobretudo quando está em causa o retratamento de alguém que viveu o que ele viveu. Ironicamente sempre escreveu em alemão (língua que a sua mãe fez questão que aprendesse) apesar de ser fluente em diversos idiomas (como se pode notar nas suas traduções que vão desde poetas russos a Fernando Pessoa) mas ressalvando que: "Só na língua materna pode alguém dizer a sua verdade. Quando escreve numa língua estrangeira, um poeta mente.". É interessante acompanhar a evolução da escrita do autor há medida que se vai tornando cada vez mais silencioso e até criptográfico, num ritmo que acompanha, ele próprio, a sua quase degeneração humana, corroendo-se de um vazio interior do qual já só são possíveis impressões e parcas palavras, numa tentativa de anulação da linguagem a caminho do nada: "A linguagem já não se impõe, expõe-se", dizia Celan mais tarde.
Foi também assim que caminhou para a sua morte, a 20 de Abril de 1970, no rio Sena, onde escolheu deixar a nossa presença. Ia completar 50 anos de idade. Parece que, afinal, as palavras não chegaram...
>>>>Todesfuge - não é a melhor tradução que eu conheço, mas já dá para ter uma ideia: http://www.blocosonline.com.br/literatura/poesia/pi03/pi230301.htm
e para quem estiver interessado em ouvir o próprio Paul Celan a recitar o seu poema: http://www.youtube.com/watch?v=mBpPioBKDJM&feature=related