
Há já algum tempo que ando a reflectir sobre a colocação de um post relativo a um tema bíblico. Para quem me conhece bem até é de estranhar que, ao fim de quase um ano, ainda não o tenha feito de forma explícita, mas julgo que ao ler-se o blogue, aqui e ali (salvo os momentos em que o espírito não falou tão forte), já deu para perceber em que pé é que me encontro.
De entre as inúmeras passagens que poderia escolher, confesso que há uma que me toca particularmente. Estou a falar do episódio da mulher adúltera. Penso que é uma passagem bem demonstrativa da real dimensão e significado da
passagem de Jesus Cristo pelo mundo. Aqui encontramos bem patente a lei suprema do universo que o Filho do Homem veio pregar, a qual está acima de todas as outras, pela simples razão de que já as cumpre, além de as preencher de sentido: o Amor pelo próximo.
Relembrando sucintamente, na passagem a que me refiro, os judeus vieram entregar a Cristo uma mulher apanhada em adultério. Segundo a interpretação que se fazia da Lei na altura, essa mulher deveria ser apedrejada em praça pública. O intuito de quem a entregou a Cristo, mais do que castigá-la, era o de O tentar apanhar numa cilada pois, assumindo-se Ele próprio como o Messias, o Enviado de Deus de quem as escrituras falavam, qual seria então a sua interpretação da Lei neste caso? Seguiria o costume judeu, sendo conivente com o apedrejamento mas, simultaneamente, condenando alguém à morte (Ele, que pregava o amor e o perdão) ou, por outro lado, absolveria a mulher, indo assim contra o que estava escrito?
Perante esta situação, Jesus, com grande serenidade, lança um repto aos acusadores: "Aquele que de entre vós está sem pecado, seja o primeiro a atirar uma pedra.". Um a um, os homens que vieram entregar a mulher à presença de Cristo foram abandonando o local, sem nenhum ter lançado qualquer pedra. Posto isto, e ao ver que ninguém restava da multidão, perguntou à mulher: "Mulher, onde estão os que te acusaram? Nenhum homem te condenou?", ao que ela respondeu, "Não, meu Senhor", e aí diz Jesus: "Pois também eu não te condeno. Vai, e não voltes a pecar."
A mestria de Cristo ao lidar com esta a situação é absolutamente formidável. Mais do que apressar-se a dar um julgamento à mulher pede aos presentes que, em consciência, e achando-se dignos de efectuar tal julgamento, avancem e façam cumprir a Lei de Moisés. Ora, Cristo sabia muito bem que neste mundo, para além d'Ele, ninguém é livre de pecado, não possuindo, portanto, ninguém, a estatura moral para condenar quem quer que seja. Mas mais importante do que isto é a nova dimensão que é introduzida aqui na Lei bíblica, na qual, acima de qualquer regulamento ou sentença perante o pecado, se encontram a compaixão e o perdão, dois dos maiores caminhos para a conversão a Deus.
Na realidade, a meu ver, só mesmo aquela mulher, desesperada a caminho de uma morte violenta e cruel (à semelhança de tantos outros que se vão achando em situações extremas pela vida fora), terá sido capaz de perceber a verdadeira grandeza que tem a chama redentora deste gesto de misericórdia.
Cristo consegue assim, para além de manter a coerência com a Palavra que ensinava e da qual era o exemplo vivo, elevar aquela pecadora à graça do Pai, relembrando-nos ainda da humildade que deve estar presente a cada momento da nossa vida, nas nossas acções e palavras, posto que, é certo e sabido, ninguém é perfeito.
É perante esta figura que o mundo pára e olha para dentro, descobrindo uma mensagem universal de amor e compaixão cujo alcance está infinitamente tão para lá do nosso entendimento, mas tão infinitamente próximo do nosso coração. O Amor, e só o Amor, é o que une todos os homens, o que destrói as barreiras e penetra a fronteira das diferenças, sublimando a dor e o sofrimento numa canção de vida e comunhão.
É por estas razões e mais algumas que, escreva-se, diga-se ou faça-se o que quer que seja para perverter a Fé dos que a têm, Jesus Cristo permanecerá incorruptível perante o julgamento dos homens, ao ser um modelo radical de amor e sabedoria que nos aponta o caminho para uma verdade que, por vezes, parece tão distante, mas que afinal está aqui tão perto, aqui tão dentro de nós.






